A Aura da Dama de Espadas

  • José Manuel de Vasconcelos Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias

Resumo

Lo más fácil, entre nosotros, será morir; un poco menos fácil, soñar; difícil rebelarse;
dificilísimo, amar.
Carlos Fuentes

A rua era íngreme e as chuvas abundantes dos últimos dias tornavam-na escorregadia e ainda mais suja do que o habitual. As sarjetas estavam entupidas e nas entradas acumulavam-se detritos, terra, folhas secas. O ar inchava, carregado de água, o céu baço e pesado cobria a cidade de turvas inquietações. Sérgio subia envolto numa nuvem de memórias. As mãos nos bolsos, o olhar levitando num ponto obscuro que parecia não estar dentro nem fora de si, mas num outro espaço, ao sabor de um outro vento, que não o que colina abaixo o ia desgrenhando e dificultando a sua marcha lenta e concentrada. Chegou ao pequeno miradouro onde sempre gostava de parar por momentos antes de retomar o seu caminho. Não havia ninguém. Os bancos de mármore do jardim estavam luzidios de água e não convidavam ninguém a sentar-se neles. Aproximouse do murete que limitava o espaço do miradouro e sentiu a cidade, a seus pés, como que a subir de rompante até ao seu olhar, a implorar qualquer coisa de indefinido. Aquele espectáculo tantas vezes visto era sempre novo. As casas velhas empurravam-se umas às outras e, ao mesmo tempo, amparavam-se naquela descida desenfreada até ao rio. Os telhados maceravam na humidade do ar. Ao longe, de quando em quando, evoluíam pequenos ruídos, e vozes desprendiam-se da mole sombria do casario. Ao fundo, o rio, cinzento, parecia estagnado no seu sono de Inverno.

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Como citar
VASCONCELOS, José Manuel de. A Aura da Dama de Espadas. Babilónia - Revista Lusófona de Línguas, Culturas e Tradução, [S.l.], n. 06/07, nov. 2009. ISSN 1646-3730. Disponível em: <http://revistas.ulusofona.pt/index.php/babilonia/article/view/922>. Acesso em: 24 apr. 2019.
Secção
Escrita Criativa