A “LUSÓFONA” QUER SER UMA UNIVERSIDADE DA LUSOFONIA, COM A LUSOFONIA, PARA A LUSOFONIA!

  • Fernando Santos Neves Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias

Resumo

A “Lusófona” quer ser uma Universidade da Lusofonia, com a Lusofonia, para a Lusofonia!

O “estado da arte ou da nação” da Lusofonia (e da CPLP?) acaba de mostrar todo o seu esplendor nos últimos tempos com o surrealista “caso da carta de condução de Mantorras” e os não menos surrealistas casos das “cartas de condução dos Portugueses de Angola”...Mais palavras para quê? Querem outro caso, finalmente parecido pelo que revela de ridículo, de inconsciência e de inexistência de uma visão lusófona? A 10 de junho do ano 2006 publiquei, no Jornal Público, uma breve nota intitulada: “As velhas feiras do Livro estão mortas; vivam as novas feiras do Livro Lusófono!”, tendo, a seguir, convidado todos os editores e livreiros portugueses para um encontro sobre a maneira de ultrapassar a sentença por mim citada do escritor José Eduardo Agualusa: “O Parque Eduardo VII talvez seja realmente o lugar apropriado para acolher a actual Feira do Livro de Lisboa. Representam ambos um passado morto!” Sabem quantas foram as respostas ao meu apelo individualizado: duas ou três, a dizerem que não podiam aparecer. Os editores e livreiros portugueses preferem continuar com as suas barraquinhas no seu Portugalinho e nas suas Feirinhas do Livro do “passado morto”! “Eppur si muove!”, como terá sido o grito antiobscurantista de Galilleu! E, no entanto, a “Hora da Lusofonia” está aí e, desculparão a imodéstia, está aí em grande parte devido à Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias! Os próprios vocábulos “Lusofonia” e “Lusófono” só terão sido introduzidos na linguagem e nos dicionários portugueses depois da existência e por influência da Universidade Lusófona. Até me recordo de que, ainda nos anos 80 do século XX, uma das grandes objeções à denominação desta Universidade como Universidade Lusófona era de que tal palavra não existia e “soava mal”...
Mas o que é, então, a “Lusofonia” de cuja existência a U.L.H.T. se tornou a grande responsável histórica e de que a C.P.L.P. (em cujo nome, não por acaso, nem sequer o termo “Lusofonia” ou “Lusófono” aparece...) poderia vir a ser o motor e a pública realização essencial (competente “Secretário-Executivo” já tem, só lhe falta quase tudo o resto...)?
Remetendo, neste momento, para quanto tenho vindo a escrever sobre o assunto, direi apenas o seguinte3:
a) A Lusofonia é, obviamente e antes de mais nada, uma essencial questão de Língua, a questão da “Língua Portuguesa” como uma das pouquíssimas línguas potencialmente universais do século XXI e como tal podendo e devendo tornar-se instrumento único de comunicação e desenvolvimento, sendo tempo, para todos e de todos os quadrantes, de se abandonarem, uma vez por todas, os fantasmas de reais colonialismos passados ou de possíveis colonialismos futuros. Há muito que deixaram de existir os “Países e Povos de Expressão Portuguesa, os Países e Povos Lusíadas”, dando lugar a “Países e Povos de Língua Portuguesa, a Países e Povos Lusófonos!” Quando perceberão isto os “colonialistas de antanho” e os “anti-colonialistas de sempre”?
Compreender-se-á também porque é que eu permanentemente desassossegue as consciências de todos os Lusófonos com perguntas, só à primeira vista secundárias, como, por exemplo: Para quando a criação de uma Academia interlusófona da Língua Portuguesa? Para quando a feitura e a entrada em vigor legalmente obrigatória de um (nem sequer disse “do”) Acordo Ortográfico Lusófono? Para quando, designadamente da parte dos governos de Portugal e do Brasil, a ultrapassagem do provincianismo que impede de entender que o investimento em leitores e professores de Português no mundo inteiro (a começar, obviamente, no Espaço Lusófono) é, além do resto, o investimento economico-político mais rentável? Para quando a promoção das “Feiras Lusófonas do Livro” e, de maneira mais vasta, do “Mercado Editorial e Comunicacional Lusófono”? Porque é que uma revista histórica como “Présence Africaine, Revue Culturelle du Monde Noir” se tornou, desde há muito, “Cultural Review of the Black Word” e ainda não “Revista Cultural do Mundo Negro”, já que o Português é reconhecidamente a 3ª maior língua europeia do Continente Africano? Porque é que nos grandes centros europeus e mundiais tanto Portugal como Brasil se esquecem de colocar os seus jornais, revistas e outras publicações de Língua Portuguesa? Porque é que, sendo o Brasil demograficamente o maior país católico do mundo, a Língua Portuguesa ainda não se impôs no Vaticano como uma das grandes línguas da Igreja Católica? Etc. Etc. Etc?... E não obstante alguns considerarem que o “JL (Jornal de Letras, Artes e Ciências)” se transformou no “boletim paroquial da aldeia lisboeta”, não posso deixar de solidarizar-me com a nobre “luta contínua” do seu director, José Carlos de Vasconcelos, que ainda no último número de 28 de março mais uma vez resmungonamente disse e disse bem: “...Lamento tudo o que entre nós não se tem feito, e devia fazer, pelo que é a nossa maior riqueza e o nosso principal fator de identidade. Enquanto os nossos vizinhos e amigos espanhóis, em conjunto com os ibero-americanos que falam castelhano, dão um magnífico exemplo com o IV Congresso Internacional da Língua Espanhola, em Cartagena das Índias, que termina hoje, quarta-feira, 28. Congresso antecedido de uma reunião plenária da Real Academia Espanhola com a Associação de Academias da Língua (dos 22 países de idioma comum), que aprovou a Nova Gramática da Língua Espanhola, tendo como objectivo fixar o «espanhol comum» e acrescentar-lhe todas as «variantes, incluindo a de Espanha». Um exemplo, a que voltarei. Por agora, revertendo ao início deste comentário, lembro a sugestão aqui deixada há um ano, sobre a qual tombou o silêncio do costume e que mantém a mesma ou maior pertinência: ligar a sede e a ação do nunca verdadeiramente «activado» Instituto Internacional da Língua Portuguesa ao vitorioso Museu da Língua de São Paulo...”
E também eu aproveito da oportunidade para saudar a recente inauguração do “Museu da Língua Portuguesa” na maior cidade lusófona (e quase também não lusófona) do Mundo que é a cidade brasileira de São Paulo, até porque isto poderá bem ter sido, para os Brasileiros, o princípio do princípio, ou seja, o princípio da perceção de que, sem o Brasil, nunca haverá Lusofonia mas também de que, sem a Lusofonia, nunca haverá Brasil que deixe de ser o eterno “país do futuro”!
E, sem nenhuns provincianismos patrioteiros ou outros, em recentes magníssimos encontros ibero-americanos, até me vi na obrigação de alertar: “Caveant Lusophoni”, “Atenção, Lusófonos!” e recordar a todos (lusófonos incluídos) que nesse grande Espaço Humano da IberoAmérica há, pelo menos, duas grandes línguas, a saber, o Espanhol e o Português e que é mesmo o Português- Brasileiro a única dessas duas línguas que tem um país gigante a falá-la, o que, já para Fernando Pessoa nos inícios do século XX, era uma das condições essenciais para que uma língua qualquer pudesse tornar-se uma língua universal... Nem é por acaso que, na sigla BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China) dos grandes países emergentes agora tanto na moda, a primeira das iniciais é, precisamente, a inicial “B” de Brasil, cuja língua, em “mais doce” ou em “mais bonita” como por vezes se diz, não deixa de ser a “Língua Portuguesa”!
b) A Lusofonia é, também e sobretudo (como mais uma vez e demoradamente expliquei no “I Congresso Internacional da Lusofonia”, Sociedade de Geografia de Lisboa, 8, 9 e 10 Fevereiro 2007), um decisivo projeto ou uma decisiva “questão de estratégia comum de Desenvolvimento Humano Sustentável e de Espaço Geopolítico Próprio no globalizado mundo contemporâneo”. O que também é válido para a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), que deveria adotar o nome menos restritivo de “Comunidade Lusófona”.
E sobre a “Lusófona”, enquanto “Universidade da Lusofonia, com a Lusofonia e para a Lusofonia”, nada mais direi, aqui e agora, a não ser que penso cabalmente justificada a minha repetida confissão pública de que o julgamento de que mais gosto de ouvir não é que a “Lusófona” seja a maior e mais completa das universidades privadas e das cientifico-pedagogicamente mais inovadoras de todas as universidades portuguesas, mas sim que seja por todos reconhecida como “Universidade Certa na Hora Certa para a Lusofonia Certa!”.

Como citar
SANTOS NEVES, Fernando. A “LUSÓFONA” QUER SER UMA UNIVERSIDADE DA LUSOFONIA, COM A LUSOFONIA, PARA A LUSOFONIA!. Revista Lusófona de Humanidades e Tecnologias, [S.l.], n. 12, nov. 2009. ISSN 1646-4028. Disponível em: <http://revistas.ulusofona.pt/index.php/rhumanidades/article/view/980>. Acesso em: 27 may 2017.
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