O cavalo em lenta metamorfose

  • Paula Cristina Costa Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias

Resumo

Era um dia triste de Inverno. Lá fora, o vento gemia e a chuva relinchava de encontro aos vidros, com toda a virilidade de um cavalo sem freio e sem rédeas. Sofia, sentada à sua secretária, lia. Ou fingia que lia. Porque, realmente, na fértil aridez da sua leitura, outras imagens se sobrepunham, a um ritmo vertiginoso, às do texto. Uma delas, era a de um cavalo que corria, inclinado contra o vento, com a espuma das suas crinas ao rubro. Cavalo de terra, cavalo de água, pensava Sofia. Primeiro, via-o surgir, com toda a nitidez, sem esporas, sem rédeas, sob a crosta da superfície da terra. Depois, à medida que o seu olhar se ia fundindo com a linha do horizonte, e com aquela chuva morrente, já sem pescoço, sem cabeça. Olhá-lo, era para Sofia, preparar-se para seguir os seus caminhos de fogo. Rasgar-se por inteiro e abandonar-se ao galope daquela liberdade verde.
Secção
Escrita Criativa