CFP. Vol. 2 No. 1: A crítica no seu momento crítico: o cinema e os media em face dos desafios colocados pela revolução digital

2026-10-02
Não Desviar o Olhar (2026) de Júlio Alves

Deadline: 30 de Janeiro

Caleidoscopio – Revista de Comunicação e Cultura é a revista do Departamento de Ciências da Comunicação da ECATI, da Universidade Lusófona. Fundada em 2002, a Caleidoscopio regressou em 2026 como plataforma de acesso livre, dedicada à investigação crítica em ciências da comunicação, com um especial enfoque na intersecção entre a comunicação,  os media e as artes nas sociedades contemporâneas.

 

CFP:

O presente número pretende despertar a afinidade etimológica, vinda do grego, entre Kritikos e Krísis. O crítico será alguém que, por força da sua po(i)ética própria, analisa a obra, salvaguardando a distância justa, possibilitadora tanto do processo de descodificação como do de aferição. Ele mergulha no tempo da obra e, em simultâneo, delineia distâncias de segurança na relação com o objecto em estudo, nomeadamente ao integrá-lo numa tradição ou conjunto de movimentos que o precede. O crítico é, por definição, produto e produtor desta distância, algo que é condição sine qua non da sua actividade, pois toda a crítica é também uma forma de mediação. 

 

Como bem explicou Roland Barthes, no seu Crítica e Verdade, toda a crítica implica um desejo de linguagem ante a imersão no objecto de estudo. Todo o exercício crítico se implica nesse exercício, ingrato e paradoxal até certo ponto, de sair do “imediato” da obra para a tornar, em texto ou oralmente, numa forma “mediata” de discurso. O crítico, nesta tradução, inevitavelmente perifrástica (o desejo de linguagem traduz-se, em regra, num excesso de palavras), constitui-se tanto como um tradutor como com um montador: alguém que rememorando a obra, ao procurar confundir-se com ela no seu discurso (nunca se é suficientemente mimético, lamentava Manny Farber), visa dar uma forma qualquer à experiência, animando um diálogo interior com a obra, quer dizer, nela e fora dela, ou seja e enfim, sempre com mas também contra ela, indo ao seu encontro mas outrossim modificando-a estruturalmente. 

 

Entre a ética e a estética, entre a arte e a comunicação, entre o perto e o longe, entre a distância e a imersão, entre o amor e o juízo, entre a interpretação e a contra-interpretação, a crítica afirma-se enquanto escola de pensamento que institui modos de ser como modos de ver ou, na sua vertente mais cinéfila, enquanto modos de viver. Um gestor de distâncias pós-kantiano enfrentando o mundo e, nele, o bruaá nivelador do mercado e da multidão, o crítico enfrenta desafios crescentes à sua actividade, em resultado das novas possibilidades e desafios colocados pelas ferramentas e motores digitais (a inteligência artificial, a realidade virtual e a gamificação das relações interpessoais nas redes sociais), e por uma cultura do “eu” altamente performática que privilegia o juízo rápido em desfavor do estudo, o “gosto, não gosto” ou, ideologicamente, o “acuso e denuncio” em prejuízo de o “penso e analiso” (vide a actual “era do clash” e a cultura do cancelamento e suas ramificações). E que, por vezes, negligencia o “mas” agenciador da nuance, pois, como escreveu Walter Benjamin, no seu texto fundamental (mas inacabado) «A Tarefa do Crítico», “[n]o verdadeiro crítico o juízo propriamente dito é o último a que ele chega, e nunca a base do seu trabalho crítico. A situação ideal é aquela em que ele se esquece de emitir um juízo”. 

 

Como encarar a crise de toda uma classe, a dos críticos, face a tempos em que a crítica (uma certa cultura do ataque e do choque) parece estar por todo o lado? Que prosa crítica se pretende resgatar dos exemplos passados, fazendo parte activa de uma concepção política e estética do mundo? Como pôr em crise a dominante (e dominada?) função crítica numa sociedade encurralada por um “realismo capitalista” (Mark Fisher) que torna cada acto dissonante em mercadoria, dentro de uma lógica narcísica e autofágica de “se gostou disto, vai gostar daquilo”? Damos um exemplo no campo do cinema: fenómenos como o Letterboxd, no âmbito de uma nova cinefilia ou de uma cinefagia 2.0, aproximam a experiência da obra de uma lógica cumulativa e descartável mais próxima das operações de mercado do que do gesto original e originário do criador, mas, ao mesmo tempo, porque é que essas forças – as do mercado – parecem estar sempre “a mais” numa arte que, nascida como atracção de feira, nunca deixou de ser também isso, uma indústria, e se o espectador também nunca deixou de ser isso, um consumidor? Ao mesmo tempo e face a todos este novos desafios colocados pela revolução digital, alguns antecipando um muito propalado “fim do cinema”, não é verdade que o espectador e o crítico sempre se souberam reinventar tal como, aliás, os filmes a que foram assistindo? Concluiu Jonathan Rosenbaum em Goodbye Cinema, Hello Cinephilia: “Apesar de tudo aquilo que possamos perder, e possamos odiar perder, não encontrámos ainda uma maneira de determinar aquilo que podemos ganhar”. 

 

Face a pressões várias, técnicas, sociais, políticas e económicas, interrogamo-nos sobre os caminhos da crítica nos vários domínios da comunicação e das artes: em que medida pode um certo exercício crítico significar uma escapatória à dissolução do espectador na condição (ou no seu papel) de consumidor (sem memória), à redução da obra de arte a conteúdo ou produto (sem identidade)? De que modo o pensar-se ou o repensar-se a crítica como género jornalístico e literário, nestes tempos em que esta já não só se define enquanto crise como efectivamente está em crise, dependerá ou não da afirmação de uma perdida “arte de amar” (Jean Douchet) numa sociedade, porventura excessivamente cartesiana, cerebral ou algorítmica (ainda que porventura cada vez mais amnésica e acrítica), em que o próprio amor é reduzido a códigos e palavras-chave bastante instrumentais? Teremos chegado ao “momento decisivo” em que se tornou imperioso e justo reconvocar-se e renovar-se um certo modo de fazer crítica como facilitador de uma distância perdida com o tempo e as coisas?

Os dados estão lançados para um regresso ao território da crítica.

 

Convidamos à submissão de propostas nas áreas da arte dos media, film studies, filosofia do cinema, filosofia da técnica, semiótica, teoria crítica, teoria dos media e visual studies. Não existem custos para os autores de processamento ou publicação.

 

Chamada para artigos: até 15 de Janeiro 2027

Comunicação das decisões aos autores: Abril

Segunda ronda de revisão e edição: Maio

Publicação: Julho de 2027

 

Editores do número: Júlio Alves e Luís Mendonça.

 

Por favor, consulte as informações de registo e submissão em: https://revistas.ulusofona.pt/index.php/caleidoscopio/about/submissions.

 

English version at: https://revistas.ulusofona.pt/index.php/caleidoscopio/announcement/