“Mon désir est là sur quoi je tire”
Ensaio sobre a ferida, a criação e a indexicalidade do disparo
DOI:
https://doi.org/10.60543/0dpyfr15Resumo
Este ensaio visual parte da experiência de Guillaume Apollinaire nas trincheiras de Main de Massiges durante a Primeira Guerra Mundial. O poeta, imerso na violência e fragmentação disferidas pelo conflito, regista poeticamente a tensão entre a destruição e a criação em “Désir” (Calligrammes, 1918), onde o fazer-se mediaemerge como impulso vital — “Mon désir est là sur quoi je tire”.
Os mapas de Main de Massiges, trabalhados graficamente ao longo do ensaio, são as superfícies de inscrição do desejo. Mas para lá do trauma e da memória, é o traço, o corte e a sobreposição de texto-imagem que impera e reencena o encontro entre as imagens da logística da guerra e o recolhimento da invenção poética. O disparo, entendido tanto como operação material (projétil, corte, explosão) quanto simbólica (projeção, desejo, gesto poético), instaura buracos que não são meras marcas de destruição mas espaços ontológicos de criação e potencialidade.
Pensa-se visualmente o gesto de atirar como simultaneamente divisão e criação, limite e potência, dos mediamodernos. Dialogando com a noção de operatividade medial, a cartografia visual que aqui se ensaia por meio de mapas, traços e fragmentos poéticos, procura no buraco — seja a trincheira, a ferida ou a ausência — simultaneamente o índice e a infra-estrutura, não da ausência, mas da abertura ao possível. Walter Benjamin na sua análise à experiência empobrecida e fragmentada da Modernidade em Erfarung und Armut da Grande Guerra de 1914-18, encontra no vazio deixado pelo disparo da técnica moderna um novo sentido para uma outra mediação entre sujeito, mundo e linguagem. Que se inventem novas armas, sem medo nem esperança (Deleuze).
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