Encontros e Desencontros entre o Realismo e a Análise de Política Externa: o caso da invasão da Ucrânia
Resumo
As Relações Internacionais são uma disciplina recente e cujo desenvolvimento tem sido marcado por diversas questões epistemológicas e ontológicas, típicas de qualquer Ciência Social. A própria criação da disciplina está estreitamente relacionada com o seu primeiro debate teórico, que opôs o idealismo ao realismo. Nas décadas seguintes novos debates teóricos surgiram, permitindo a evolução e o enriquecimento das Relações Internacionais. A par deste desenvolvimento teórico e epistemológico, destaca-se, também, um desenvolvimento ontológico através do debate Agência-Estrutura. É neste contexto que surge a Análise de Política Externa, com o intuito de apresentar uma interpretação mais profunda da política externa dos Estados, focando o seu estudo na decisão, e recorrendo a novos níveis de análise. Ainda que a APE tenha surgido em reação e como crítica ao Realismo, o tempo veio demonstrar que o Realismo e a APE podem ser importantes aliados. Se o Neorrealismo de Waltz já consagrava a Estrutura como um importante nível de análise, impulsionando o debate Agência-Estrutura, o Realismo Neoclássico de Gideon Rose, veio, por sua vez, reconhecer novos níveis de análise, alguns partilhados com a APE. Desta forma, hoje, podemos afirmar que uma leitura realista não inviabiliza, per se, o recurso à APE, e este artigo procurará exemplificar isso através de um caso prático, a invasão russa da Ucrânia.